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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Nouvelle Vague: a revolução da estética na arte de fazer cinema

Novo estilo cinematográfico, desencadeado principalmente por Jean-Luc Godard e Françóis Truffaut, criaria condições para uma redefinição radical nos padrões e maneiras de filmar

Por Graciele Galera

Era início da década de cinquenta quando um grupo de críticos, conhecidos como jovens turcos, discutiam o papel do autor de um filme, e a importância da individualização pelo estilo. O conceito que surgia observava os pensamentos do autor, e principalmente seu estilo. Os jovens turcos desenvolveriam a ideia do cinema de autor, do diretor como autor de um filme.


O incio do projeto crítico da politica de autores pelos jovens turcos, que seria base para o surgimento da Nouvelle Vague, causaria tumulto entre os cinéfilos franceses na primeira metade dos anos 50. Os jovens encontrariam na  revista francesa Cabiers du Cinema, editada por André Bazin, importante teórico cinematográfico, espaço para expor sua idéias, e iniciar um tímido movimento cinematográfico que se consolidaria no fim dos anos 50. O grupo de críticos, autores da proposta que revolucionou o cinema Francês, se tornariam mais tarde realizadores famosos como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Jean Doniol - Valcroze.


Esta nova geração que surgia formada por jovens críticos da Cabiers du Cinema, teve Truffaut como espécie de líder, sendo o diretor de Os Incompreendidos o primeiro a chocar com a publicação do ensaio “Uma certa tendência do cinema Francês”,  um manifesto contra "a tradição da qualidade" do cinema francês. Posterimente, em 1957, Andre Bazin publica o ensaio “ A Política dos Autores”, onde o filme é considerado uma produção individual, como uma canção ou um livro. Truffaut defendia que a responsabilidade sobre um filme dependia quase que exclusivamente de uma única pessoa, em geral o diretor. “Que o filme de amanhã pareça ainda mais pessoal que um romance individual e autobiográfico, como uma confissão ou um diário íntimo. E que os jovens cineastas se expressarão na primeira pessoa, e que esse é o ponto crucial da política de autor: o autor é aquele que diz EU”. Para os jovens turcos tão importante quanto dirigir um filme, era o diretor criar a história. A politica dos autores seria um dos pilares de uma nova forma de fazer, e compreender o cinema, a Nouvelle Vague ou a Nova Onda, que defenderia tanto a produção autoral como também uma produção intimista e de baixo custo.


O novo estilo cinematográfico, desencadeado principalmente por Jean-Luc Godard e Françóis Truffaut, criaria condições para uma redefinição radical nos padrões e maneiras de filmar. O movimento da força gravitacional e da luz ofuscante, romperia definitivamente com as tradições estéticas consolidadas no período do cinema clássico. 

Se na construção clássica as técnicas devem apagar-se frente a história, pois o que importa é transmitir informações de forma linear, orientando o telespectador a  partir de narrativa continua, a Nouvelle Vague surge mediado pelos valores e conceitos da arte moderna: a descontinuidade, a incorporação do acaso e da realidade documental, a valorização da montagem, e a estética fragmentada.


A Nouvelle Vague foi um movimento da juventude, protagonizado por uma geração que começou a escrever e a fazer filmes quase adolescente, com a irresponsabilidade política dos vinte e poucos anos, mas com um raro acúmulo cultural para jovens dessa idade. Godard e Truffaut, grandes amigos, e protagonistas deste período, começariam a filmar aproveitando o clima de renovação do final dos anos 50, levando às telas o realismo da época, marcado por uma geração de jovens amadurecidos na Guerra Fria, numa Europa pós -guerra sem inocência, massificada, e sufocada pela publicidade. A geração dos jovens turcos, que, da escrita cinematográfica, passa às ruas de Paris, é sobretudo herdeira de um pesado clima de discussão, rebelada contra a geração da guerra.


Quando a nova forma de fazer cinema é reconhecida, duas obras primas marcariam para sempre a revolução estética do cinema, Os Incompreendidos e Acossado, consolidam em definitivo Truffaut e Godard como os grandes expoentes do movimento que surgia.   Como a França da época era conhecida pelo cinema de estúdio, considerar o museu, a cinemateca, as ruas de Paris, como locação privilegiado para o processo criativo de um filme foi uma ideia transformadora para um cinema, que até então, era pensando em repartições (estúdios) e com base em uma noção de linguagem e tradição.

Carro chefe da revolução estética da Nouvelle Vague, qual o roteiro tem colaboração direta de Truffaut, Acossado é a encenação completamente inovadora, tanto no trabalho de câmera como no roteiro e na direção de atores. O filme é inteiramente editado de maneira fragmentada, ressaltando os cortes, tornando-os sensíveis ao espectador. A opção por jump-cuts (corte que quebra a continuidade do tempo pulando de uma parte da ação para outra separada da primeira por um intervalo de tempo) deu ao filme um aspecto de reportagem improvisada sobre as ruas de Paris e garante fôlego à narrativa. A história é trágica, mas a câmera é autônoma e independente dos personagens e até do drama. A inovação em Acossado é o modo lúdico de filmar, heterogêneo, sem pretensões ilusionistas. Quando Godard terminou de filmar Acossado, retornou ao grande amigo para dizer que o mesmo ficaria surpreso com a forma de filmagem, e a estética que teria tomado roteiro. Acossado pode ser considerado a ruptura defitnitiva das tradições do cinema clássico, qual a França encontrava-se limitada.


Já Os Incompreendidos, de Truffaut, lançado em 1959, um ano antes de Acossado, foi um verdadeiro deleite. O filme, que recebeu o prêmio de melhor direção em  Cannes, é intimista, espontâneo, inocente e livre de convenções. Foi a sintese perfeita de tudo que Truffaut pregava como cinema do futuro. A história é comovente, realista, o relfexo da infância do próprio cineasta expressada de uma forma  tão intima quanto rara para o cinema. Realizado com não-atores, principalmente crianças, Truffaut mistura ficção e documentário pelas ruas de Paris de uma forma humanista genial. O filme estarreceu a platéia em Cannes, e levou Truffaut ao triunfo. Mais tarde, o personagem principal Antoine Doinel, seu alter-ego, se tornaria uma triologia com Beijos Roubados, Domicilio Conjugal, e Amor em Fuga, sempre vividos pelo mesmo ator. 

Godard 
Mesmo esteticamente semelhantes, os icones da Nouvelle Vague, Godard e Truffaut, tinham suas difrenças, tanto na maneira de filmar e escrever suas histórias, quanto na suas  biografias.  Godard, de pai médico, teve uma infância burguesa, enquanto Truffaut teve uma infância sofrida, cresceu renegado pela própria mãe, sendo inclusive visto como delinquente por ser enviado ao reformatório quando adolescente. Equanto Godard se destacava pela revolução da estética filme após filme, Truffaut brilhava pela intensidade de suas histórias, sempre inserindo pitadas de sua vida aos roteiros, centrado em seu próprio cinema. Se Godard inventou um modo novo de fazer filmes, e foi mais influente quanto à forma, sendo influência em todo o mundo, Truffaut é reconhecido pelo seu cinema autobiográfico, pela pureza, e identificação mais forte.

Jules & Jim, de Truffaut - Um clássico do movimento

Porém não foram às diferenças entres os dois que causaram o fim da memorável amizade, mais sim a visão política que Godard exigia de Truffaut depois da revolução de maio de 1968. A ruptura definitiva ocorreu quando Godard escreveu uma carta a Truffaut, em 1973, repreendendo-o por não ter mudado junto com a revolução, pois para Godard não se poderia mais continuar fazendo filmes da mesma maneira. A carta gerou um forte desentendimento, e em uma resposta de 20 páginas muito violenta, Truffaut atacou Godard, acusando-o de vender a imagem de um homem que combatia grandes causas, mas que era egoísta e tinha por objetivo se auto-valorizar. A partir dali, ficaram estabelecidas duas maneiras diferentes de considerar o cinema. Não seria audacioso dizer que com o fim da amizade entre os mais expressivos cineastas da Nouvelle Vague, chegou ao fim também o próprio movimento.


Cinquenta anos após a Nova Onda invadir o mundo com uma nova forma de fazer cinema, os protagonistas daquele tempo voltaram à cena em comemoração ao quinquagésimo aniversário da Nouvelle Vague, quando foi apresentado o documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, no festival de Cannes do ano passado. O documentário já estreou no Brasil e aborda a tumultuada relação entre os gênios do período, e a influência decisiva do movimento para história do cinema. Vale lembrar que a Nouvelle Vague não limitou-se a França, pois com a explosão internacional da contracultura nos anos 60, o novo cinema influenciou também Bertolucci e Pasolini, na Itália, Roman Polanski, na Polônia, Glauber Rocha, no Brasil, tendo ainda, como filho temporão, Wenders, Fassbinder e Herzog, na Alemanha.

Fonte: Culture-se