Pesquisar este blog

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Neorrealismo Italiano

A imagem escura denuncia o tempo, os semblantes dos soldados mostram o cansaço e as cicatrizes da guerra, a destruição do local evidencia o lado mais selvagem de nós humanos.



O cinema italiano, imortalizado pelo trabalho de mestres como Federico Fellini, Roberto Rosselini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica, os três últimos autores do movimento chamado neo-realismo italiano, conquistou admiradores e influenciou gerações de diretores ao redor do mundo. Atualmente, nomes como Ettore Scola, Giuseppe Tornatore, Nanni Moretti e Roberto Benigni mantêm o jeito italiano de filmar em produções premiadas e esteticamente bem finalizadas. Sergio Leone,Michelangelo Antonioni, Bernardo Bertolucci, e agora Gabriele Muccino fazem parte de outra safra de diretores italianos, que exerceram e ainda exercem, grande influência no cinema mundial, e foram importados para a industria cinematográfica norte-americana.

A temática do documentário em um filme ficcional, ou seja, a realidade numa peça de ficção, representação da realidade social, econômica e política da Itália do final da segunda guerra mundial são as características do movimento, que teve no cinema a arte mais engajada.


Um clássico mundial representa o início do movimento – que foi batizado pelo crítico cinematográfico e documentarista Mario Serandrei – Roma Cidade Aberta (1945) de Roberto Rosselini, que fez do cineasta e da atriz Anna Magnani ícones do neo-realismo. A película, filmada ainda durante a guerra, inclusive colocando cenas de combates verdadeiros, se tornou um poderoso documento contra o regime fascista.


Duas outras produções merecem destaque. Obsessão (1943), de Luchino Visconti, adaptado do livro estadunidense The Postman Always Ring Twice, e Ladrões de Bicicleta (1948), do genial Vittorio DeSica.



*** 


Para Rosselini, o neorrealismo é uma forma de, em um momento de pós-guerra, de ruína da Itália, de total miséria (squalore), dizer “ainda podemos fazer algo”, “em meio ao que parece nada, em meio a uma cidade quebrada pela guerra, os homens ainda produzem e sobrevivem”. O movimento era então, uma tentativa de democratização do artesanato do filme.


O movimento surgiu na Itália com o fim da Segunda Guerra Mundial. Em um país que estava ainda caótico e se recuperando após o longo governo fascista (1922 - 1945). Com o final da guerra, houve uma mudança econômica e social na população, com grande parcela do povo passando necessidades e desempregada. Anteriormente os filmes focavam mais em questões moralistas e com histórias romanceadas que mostravam uma falsa imagem da sociedade.


Vittorio De Sica, Rosselini e Fellini
Em contraste com tudo isso, o cineasta neorrealista trabalhava com o que tinha em mãos. Sem necessidade de agradar ao governo do país, mostrava a sociedade tal como ela se apresentava, fazendo um retrato da verdade, com filmes que seriam quase documentários.


Para que isso ficasse mais claro, constantemente eram utilizados atores não profissionais, que muitas vezes utilizavam de sua própria fala. Os personagens eram tão humanos com suas falhas e qualidades que os tornavam quase reais.


Com a escassez de financiamentos, os cenários eram feitos in loco, com poucos ou nenhum local fabricado para a execução das cenas. Constantemente também eram aproveitados restos de filmes e pedaços de rolo. Não havia efeitos especiais, o plano era colocar uma câmera na mão e fazer o filme com o som direto.

A estrutura narrativa evita as convenções clássicas de continuidade, muitas vezes não tendo uma linearidade ou explicação prévia das atitudes dos personagens que tem uma atuação mais perene e nunca exagerada.

O termo neorrealismo foi empregado pela primeira vez em 1942, quando Umberto Barbaro o citou na Revista Cinema, referindo-se ao novo movimento como autêntico, revolucionário, engajado e antifascista.


Roma, Cidade Aberta (1945), com Anna Magnani, musa do neorrealismo
Mas no cinema, o movimento teve início em 1945 com o lançamento de Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rosselinni. Ao contrário do que se esperava, o filme teve uma recepção fria do público, que não considerava pagar para ver o que sempre viam na vida deles: miséria. Mas podemos observar que houve uma evolução, com o cinema pela primeira vez dando vez e voz aos oprimidos.


Dentre os principais expoentes estão Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Giuseppe Di Santis, Renato Castellani, Luigi e Vittório De Sica, com seu aclamado Ladrão de Bicicletas.

O movimento influenciou cineastas de todo o mundo, rompendo fronteiras. Satyajit Ray, na Índia, seguiu o mesmo conceito, adaptando-o à realidade de seu país. Ele retratou em seus filmes as tradições, os conflitos entre o novo e o velho e os mitos da antiga Índia, um país pobre que até hoje ainda vive em dificuldades.



Nelson Pereira no Brasil também teve suas obras influenciadas pelo neorrealismo. Vidas Secas, de 1963 é um exemplo claro da influência, ao mostrar a vida de uma família de retirantes em meio a seca e fome do nordeste.


O neorrealismo começou a perder forças na década de 50, com a melhora nas condições de vida na Itália. A Itália ainda veria ecos do movimento nas próximas décadas, sobretudo nos primeiros filmes realizados por Federico Fellini.