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sábado, 14 de janeiro de 2017

Crítica | Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Sete Minutos Depois da Meia-Noite brinca e dialoga com uma específica condição do cinema: a arte do sonho.


O filme faz um jogo entre camadas de sonhos, fantasias e ficções para solucionar um problema real do protagonista, utilizando os aparatos do cinema para ilustrar a mente infantil de forma lúdica e como essa invenção psicológica pode ser um grande benefício.

Evidentemente que isso é bastante recorrente no cinema; nesse ano mesmo pôde ser vistos alguns filmes que seguiram por essa lógica, como o terror Sono da Morte, o thriller psicológico As Nove Vidas de Louis Drax, e até mesmo a fantasia mais recente de Tim Burton, O Lar das Crianças Peculiares. Já Sete Minutos Depois da Meia-Noite opta pelo viés do drama familiar.

O longa, adaptado do livro homônimo escrito por Patrick Ness, que também assina o roteiro do filme, acompanha a história de Conor, um garoto isolado, que convive com o risco de perder sua mãe na luta contra o câncer. Até que o garoto começa a receber a visita de um monstro que passa a contar histórias para que o personagem entenda o que está acontecendo consigo próprio.

Dessa forma, o mais interessante é a oposição entre esses mundos, o real e o fantástico. Algo que o diretor J.A. Bayona já abordara em outra chave no seu primeiro longa, O Orfanato (2007). Em Sete Minutos… o problema real é tão grande que há uma recusa por parte de Conor em aceitar esses sonhos esclarecedores. Há nessa questão a explicação por esse mundo onírico vir através da figura de um monstro. Esse plano do onírico e do fantástico vem por meio de uma invasão violenta, que tenta explanar para aquele menino o que ocorre, mesmo que esse processo seja bastante dolorido.

Assim, Sete Minutos Depois da Meia-Noite joga com essas contradições entre o mundo real e o fantástico. É curioso, por exemplo, como o cotidiano de Conor é retratado de forma silenciosa, com pouquíssimos diálogos e sem trilha musical, numa mise-en-scene que recusa expressar aqueles problemas, justamente como seu personagem. Por outro lado, quando há entrada daquele monstro, o filme toma um desenho sonoro extremamente forte, cheio de ruídos e até mesmo a forte presença da voz do monstro que agride, ou ao menos provoca o protagonista, assim como o espectador.

É interessante como esse embate entre os dois mundos vai ficando cada vez mais fluído. As fronteiras entre realidade e fantasia vão se dissipando, como se um habitasse o outro. Dessa forma, vale ressaltar o trabalho de montagem de Jaume Martí e Bernart Vilaplana, que conectam esses mundos através da edição, utilizando cortes em que o mundo real é continuação do imaginário, em que o movimento dentro de uma esfera é completada no outro âmbito, unindo essas duas dimensões.

Nesse movimento gradual de diluição dos limites entre fantasia e realidade, as histórias contadas pelo monstro assumem dois caráteres: o primeiro da obviedade, de construir pontes claras entre esses dois mundos; e o segundo de explorar uma inventividade estética. Desses dois pontos, é evidente que o primeiro por muitas vezes torna-se incômodo. Se aqueles sonhos vêm justamente para clarear a relação entre aquele garoto e o mundo real, as metáforas presentes nas histórias são extremamente óbvias, subestimando bastante a capacidade do espectador. Nessas histórias bastante didáticas, o que vale ser ressaltado é como são anti-maniqueístas, desejando sempre que Conor e o público pensem de forma complexa sobre o que é fazer o bem de verdade, por exemplo.

Se esses contos são recheados de um didatismo verbal até certo ponto irritante, Bayona é hábil ao deixar essas histórias completamente interessantes. Isso ocorre pelo rebuscamento visual adotado pelo filme. As histórias narradas pelo monstros tornam-se animações que parecem ter sido feitas com tinta pastel, diferenciando-se da construção realista do mundo de Conor, ou do uso dos recursos gráficos que compõem o monstro. Isso surge mesmo nos momentos em que as fronteiras do real já estão diluindo-se, o live action mistura-se com aquelas animações, conferindo ao filme um interessante visual.

Assim, nesse jogo, Sete Minutos Depois da Meia-Noite consegue explorar seus delicados momentos, aliando a leveza que seu visual lhe atribui, mas aprofundando-se nas relação dramáticas entre os seus personagens. Aqui, J.A. Bayona demonstra certa inconstância, uma vez que ao longo do filme constrói sequências intensas emocionalmente sem cair no clichê, mantendo uma sobriedade invejável, um filme muitos vezes calcado no silêncio, na dor que não consegue ser expressada no mundo real. No entanto, minutos depois, mais para o fim da projeção, o diretor aplica sequências que parecem meras chantagens emocionais, buscando numa trilha musical melodramático seu resultado emocional.

Sete Minutos Depois da Meia-Noite é um filme que peca em muitos detalhes, e é até bastante irregular. No entanto, como já visto esse ano, o tema retratado é importante e pode ser muito bem explorado, e o longa de fantasia encontra uma chave importante, não recusando o sentimento em momento algum, além de aliar uma rica inventividade estética.