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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Há literatura fantástica no Brasil? O lado esquecido da literatura nacional


Acostumados com obras realistas, por vezes esquecemos (ou ignoramos) que muitos autores nacionais também escreveram obras fantásticas


A literatura brasileira pós-independência (de meados do século XIX até o começo do século XX) preocupava-se essencialmente em construir uma identidade nacional através das artes. Em nome desse ideal, visava-se representar as paisagens locais, os tipos sociais etc. José de Alencar é um dos maiores expoentes da época: sua obra embarcou desde o período pré-colonial, com a trilogia indianista O Guarani, Iracema e Ubirajara,até a modernidade dos romances como Senhora, Lucíola e Diva, passando pela temática regionalista de O Gaúcho. Por conta dessa obsessão não só dos autores, mas também da crítica, que valorizava as marcas de nacionalidade nos livros, muitos contos de caráter fantástico acabaram por ser excluídos do cânone, o que leva a se pensar que não houve produção significativa do gênero no Brasil durante esse período, com exceção de Álvares de Azevedo, autor de Noite na Taverna e Macário.

Não parece inverossímil afirmar que a literatura brasileira tende a seguir uma abordagem realista até hoje. Não há uma tradição forte do fantástico no país. Porém, o preconceito em relação ao gênero tende a cair por terra, e os estudos para resgatar obras esquecidas do passado e promover novos autores na área avançam. Na coletânea organizada pela Professora Doutora da UERJ Maria Cristina Batalha, O Fantástico Brasileiro: contos esquecidos, encontramos contos de diversos autores conhecidos, alguns até mesmo considerados realistas, como Machado de Assis e Aluísio Azevedo. Isso mostra que autores como Edgar Allan Poe influenciaram também a produção nacional, ainda que em menor escala.

A tradição de lendas interioranas brasileiras dá margem a contos de ambientação rural. Causos de caboclos, histórias de vinganças pessoais ou de assombrações são comuns nas produções da época. É o caso do esqueleto que atormenta os visitantes em A Dança dos Ossos, de Bernardo Guimarães e da ameaça aterrorizante dos porcos devoradores de carne em Os Porcos, de Júlia Lopes de Almeida. No cenário urbano, é mais recorrente a figura do monstro urbano, do sádico ou do doente, como nos contos da coletâneaDentro da Noite, de João do Rio.

Outra categoria pouco estudada em nossa literatura é a do gótico. Costuma-se associar o gótico ao clima sombrio da era vitoriana europeia. O termo, porém, teve sua definição ampliada ao longo do tempo, estabelecendo a possibilidade de existir mesmo um gótico tropical. A visão intelectual fin-de-siècle da sociedade é desencantada. A modernidade trouxe, juntamente com o avanço científico e tecnológico, o caos urbano, problemas sociais como a violência e a exploração do trabalho. Essa visão pessimista influenciou autores brasileiros, em cujas obras é possível reconhecer traços do gótico. Trata-se de uma estética essencialmente negativa, definida pela ausência de outros elementos, como o belo, a luz, a alegria. A ambientação é sombria, os personagens monstruosos, cheios de vícios, há a possibilidade da presença do sobrenatural, de fantasmas (pessoas ou fatos) do passado que retornam para cobrar uma dívida. Um exemplo é o conto O Espelho, de Gastão Cruls, em que um casal compra um móvel pertencente a uma ex-prostituta e passa a ser atormentado pelas imagens dos inúmeros amantes da mulher, trazendo à tona os ciúmes do marido.

É possível identificar traços do gótico na literatura nacional até mesmo em obras clássicas, como Os Sertões, de Euclides da Cunha. Na análise do Prof. Dr. Júlio França, também da UERJ, são destacadas passagens de descrições macabras, cruas, sangrentas e assustadoras. O excesso de sol também remete a um clima sombrio, seco, de natureza selvagem e povo rude.
Desta forma, obtém-se um novo prisma em relação à literatura brasileira finissecular, que vai além dos ideais dos conhecidos movimentos romântico e realista, preocupados com a representação da identidade nacional. Nossos autores exploraram também vertentes da literatura fantástica e gótica, adaptando as características dos gêneros à cultura local.

Referências:
BATALHA, Maria Cristina (org.). O Fantástico Brasileiro: contos esquecidos. Rio de Janeiro: Caetés, 2011.
FRANÇA, Júlio. As Sombras do Real: a visão do mundo gótica e as poéticas realistas. In: CHIARA, Ana; ROCHA, Fátima Cristina Dias (org.). Literatura Brasileira em Foco VI: em torno dos realismos. Rio de Janeiro: Casa Doze, 2015.