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quinta-feira, 5 de abril de 2012

NADA É POR ACASO



Sentados à mesa de uma lanchonete, Rogério e Carla conversam em frente à janela. Discutem detalhes do casamento. Ele é um jovem branco e alto; ela, uma bela morena, de estatura mediana. A noiva pergunta:

- Amor, já acertou o valor com o fotógrafo?

- Só depois que você me disser o que acha do trabalho dele, querida. – diz o rapaz.

Rogério entrega um envelope pardo à Carla.

- Deixa eu ver, amor.

- Umas fotos interessantes. Você vai gostar.

A morena abre o envelope, começa a passar as fotos uma a uma, surpresa, incrédula, com o que acaba de ver.

- Meu Deus! Isso não pode tá acontecendo comigo!

- É claro que pode. – responde serenamente.

As fotos reveladoras mostram Carla e o amante saindo de um hotel, num carro, em plena luz do dia. Ela tenta se justificar:

- Eu posso explicar, Rogério!

- E pensar que briguei com minha melhor amiga por sua causa...

Carla tenta segurar as mãos do noivo, mas ele evita-a.

- Deixa eu explicar...

- Explicar o quê, Carla? – mantendo-se calmo, completa - Ah, tá! Foi sua despedida de solteira; não é?!

Enquanto fala, a moça gesticula, nervosamente, passando as mãos no cabelo.

- Rogério, eu sei que errei com você. Fui uma fraca, mas me perdoe! Por favor! – implora.

- Como você pôde fazer isso comigo?!

- Me perdoe! – insiste.

O rapaz balança a cabeça negativamente. Profere a sentença:

- Não!

A moça põe-se a chorar. Rogério levanta-se, tira a aliança da mão direita, pousa-a sobre a mesa e sai.



Mais tarde, na rua, o trânsito está intenso. Ele corre pela calçada, tentando se esquivar dos pedestres. Olha o relógio de pulso, que indica 15h55min. Será que dá tempo?

Finalmente, no corredor de um edifício, Rogério, ofegante, toca a campainha de um apartamento, insistentemente. A porta é aberta por uma pequena e bela jovem branca, de cabelos compridos. Chamava-se Ana Flávia.

- O que você quer, Rogério?

- Primeiramente, lhe pedir desculpas.

- Só isso? Então, tchau. – sumariamente ela diz.

- Não; espere! Tem mais!

Ana Flávia tenta fechar a porta, mas é impedida por Rogério, que se coloca entre ela e o batente.

- Você tá me machucando, Ana. Deixe eu entrar.

A moça força a porta contra o corpo do rapaz.

- Eu não quero falar com você. Vá embora, Rogério!

- Ana, se realmente não quisesse falar comigo, não teria atendido à porta, quando me viu pelo olho-mágico.

A jovem larga a porta. Rogério entra e fecha-a. Vê algumas malas num canto da sala. A moça informa:

- Olha, não tenho muito tempo. Meu táxi já deve tá chegando. Então, fale rápido, fale logo!

- Não vá, Ana. Não faça essa viagem, por favor! – pede o rapaz.

- Me dá um bom motivo pra não ir.

- Eu terminei com ela.

- O quê?! – diz ela, surpresa.

- Eu terminei com ela. Olha, desculpe ter dito aquelas coisas. Você estava certa... Ela realmente tá tendo um caso. - explica.

- Pera aí! Pera aí! – começa o sermão - Quem você pensa que eu sou?! Acha que pode vir aqui, me pedir desculpas, dizer que terminou seu noivado com aquelazinha, na véspera do seu casamento, e simplesmente querer que eu deixe de viajar pra ficar com você?

- Bom, é que eu pensei que...

A moça interrompe:

- Você pensou?! Você pensa demais, seu idiota! – pausa e, já com uma voz doce, continua – Mas, desta vez, você pensou certo. Porque eu o amo!

Rogério e Ana Flávia caminham um ao encontro do outro e beijam-se apaixonadamente.



Seis meses depois...



É noite. Na sala do apartamento, a TV, ligada num canal qualquer, ilumina o ambiente. As fotos espalhadas no chão esboçam a silhueta de um casal.

Ana Flávia está sentada no sofá, por cima das próprias pernas, assistindo à TV. Passa, sensualmente, uma das mãos por entre os cabelos; depois, desvia o olhar para a janela. Com os olhos em lágrimas, olha a chuva que cai lá fora.

Na cozinha de outro apartamento, ouve-se o som de gotas d’água saindo da torneira e caindo na pilha de louça suja, que está na pia. Vê-se um jovem, moreno claro, alto, de cabelos curtos, sentado à mesa; ele come um sanduíche e bebe um copo de suco, desanimado. Seu nome é Flávio. Lembra-se da discussão que teve semanas atrás com a ex-namorada.

- Por que você sempre critica tudo?!

- Porque eu sou assim mesmo! – dia a ex.

- Você é uma pessoa muito difícil, sabia?!

- Então, por que continua comigo?! – ela interroga.

Com um olhar distante, o rapaz toma do suco e morde o sanduíche, o qual mastiga lentamente.



Dias mais tarde...



Observando as vitrinas das lojas do shopping center, Ana Flávia e Bianca conversam, caminhando lentamente.

- Como você tá, amiga?

Ana Flávia suspira:

     - Tô indo! Mas vou superar.

- É assim que se fala, amiga! – tenta confortá-la - Não ligue, os homens são assim mesmo. Quando você menos espera, eles aprontam. E, quando menos esperar, vai aparecer um príncipe na sua vida.

Ana Flávia lamenta:

- Eu perdi aquela oportunidade no exterior por causa dele. Por que eu fui confiar no Rogério?!

Bianca, sempre positiva, diz:

- Olha, isso deve ter acontecido por algum motivo. Afinal, nada é por acaso.

Subitamente, ouvem o som do celular dentro da bolsa de Bianca. Ela abre-a e atende.

- Oi, amor! Tudo bem?! Ah, tô aqui no shopping, com a Aninha. Vem sim. Acho legal. Mas será que ele vem? Tomara. Tá bom; vamos ficar esperando. Te amo!



Era quase término do expediente. No escritório da empresa, Gustavo despede-se ao celular:

- Também a amo, meu amor! Tchau! Tchau!

Ele desliga o aparelho, animado. Levanta-se de sua mesa, abre a porta e vai para o corredor, por onde caminha apressado.

Em outro escritório, Flávio, com olheiras, em virtude das noites maldormidas, está sentado à mesa, relaxado. Olha fixamente para um pedaço de papel que tem nas mãos. De súbito, alguém bate à porta. Rapidamente, o rapaz dobra o papel e guarda-o no bolso da calça, ao mesmo tempo em que se ajeita na cadeira.

- Quem é? – pergunta ele.

Uma voz masculina responde:

- Sou eu, meu amigo.

- Entra, Gustavo.

O rapaz entra, dizendo:

- Cara, liguei pra Bianca. Ela tá lá no shopping com a amiga. É a sua chance de conhecê-la.

- Hoje não vai dar. Deixe pra próxima.

- Flávio, ela foi abandonada pelo namorado. O safado a deixou pra ficar com outra. Tá carente. Coisinha linda!

- Pô, Gustavo, tô com umas papeladas pra botar na mesa do chefe, amanhã cedo. – ele inventa uma desculpa.

O amigo senta-se numa cadeira em frente à mesa. Diz:

- Cara, tu já tá nessa há um tempão. Tá na hora de sair com alguém. – pausa e pergunta - Quer conversar sobre isso?

- Não, Gustavo; eu tô legal. Só quero dar mais um tempo.

- Acho que você tá é perdendo tempo, Flávio - adverte.

- As mulheres é que não gostam mais de poesia, Gustavo.

- Algumas ainda gostam, meu amigo.

Flávio completa, mostrando-se incrédulo:

- Será?

Gustavo levanta-se, aproxima-se do rapaz e dá-lhe um tapinha no ombro. E, antes de partir, diz:

- Bom, eu vou indo. Se mudar de ideia, me ligue.

Sem olhar para o amigo, Flávio acena positivamente com a cabeça. Gustavo sai.



No quarto do apartamento, insone, movimenta-se de um lado a outro da cama. Senta-se, passa as mãos no rosto e olha o relógio digital, em cima do criado-mudo, indicando 02h39min. Então, acende o abajur e, debaixo do relógio, pega o pedaço de papel, para o qual fica olhando. Flávio levanta-se, com o papel na mão, vai até a janela e observa a solidão da noite.

De manhã, já no escritório, Flávio, sentado à mesa, tira do bolso da calça o pedaço de papel. Olha para o mesmo e respira fundo. Decidi-se; pega o celular e disca.

- Bom dia! É que... É que eu gostaria de... Eu gostaria de marcar uma consulta.



Uma semana depois...



No corredor de um edifício, Flávio está de pé, em frente a uma porta com as inscrições “CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA”. Finalmente, decide tocar a campainha. Depois de alguns instantes, a porta é aberta por Ana Flávia. A moça faz o cumprimento:

- Olá! Tudo bem?

Flávio olha-a de baixo a cima e, encantado, sorri.

- Tudo... Tudo bem, menina!

Ana Flávia retribui o sorriso.
 


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