Pesquisar este blog

terça-feira, 19 de julho de 2016

Dicas para começar bem na era da autopublicação

O trabalho dos escritores pode parecer um tanto místico


Sobretudo no caso dos grandes mestres da literatura e suas obras surpreendentes. Talento e genialidade são características invejáveis em qualquer área do conhecimento, mas hoje sabemos que não têm muito valor se não estiverem aliadas à dedicação e à persistência na busca por um objetivo concreto. Essa é a deixa para os meros mortais esforçados.

Para escrever um livro é necessário mais do que ter uma boa ideia, sentar-se e escrever o que vier à mente. É preciso ter conhecimento amplo da língua e das formas de utilizá-la para levar o leitor a sentir exatamente aquilo que a história, ambientes e personagens têm por objetivo transmitir. Esse tipo de conhecimento é adquirido, em parte, com a leitura dos clássicos e dos autores renomados nos diversos segmentos da literatura. Contudo, podemos ir direto ao ponto por meio de obras direcionadas àqueles que desejam estrear na arte literária.

Uma ótima opção para quem está começando chama-se “Como melhorar um texto literário”, de Lola Sabarich e Felipe Dintel, escritores e professores espanhóis. Eles buscaram compor um manual prático sobre técnicas de narração. O livro é básico, mas é capaz de abrir a cabeça de escritores iniciantes para questões que podem passar despercebidas. Uma coisa é certa: após a leitura, adquire-se também um cacoete de crítico literário.

Confira algumas dicas de escrita dos autores sobre alguns dos aspectos abordados no livro, referentes à criação literária de qualidade:

1. A diferença entre dizer e mostrar − Caso o autor queira dar a conhecer que um personagem está triste, há duas possibilidades. Uma delas é apresentar o dado diretamente: “Fulano está triste” (simplesmente dizer). Outra forma seria: “Fulano chora o tempo todo” (tentar mostrar). Lola Sabarich e Felipe Dintel destacam que “os textos literários em que prevalece a estratégia de mostrar obtêm resultados mais estimulantes para o leitor, que terá de exercitar a imaginação e sua capacidade dedutiva, à medida que vai reconstruindo o mundo que o autor lhe apresenta. A leitura se converte, portanto, num ato criativo” (pág. 12).

2. A construção de cenas − Segundo os autores, a construção de uma cena depende de três fatores: moldura (elementos fixos do cenário, como objetos, elementos da natureza etc); atmosfera (elementos variáveis, como a luz, sons e a temperatura); e ação (tudo o que ocorre no cenário, desde movimentos até diálogos e pensamentos). “A menos que o autor pretenda, conscientemente, eliminar algum deles, deverá levá-los em conta toda vez que for construir uma cena” (pág. 27).

3. A criação de expectativas − “É indispensável que o escritor maneje as informações de modo que o leitor progrida na história fazendo perguntas e encontrando respostas, elucidando questões e tropeçando em novos enigmas. Temos aqui uma regra de ouro válida para qualquer relato, pertença ou não ao gênero de suspense” (pág. 47).

4. O tempo narrativo − Os autores falam sobre a importância de se conhecer as diferentes formas de tratar o tempo em um relato, seja alterando a ordem cronológica dos fatos ou trabalhando com o tempo psicológico dos personagens. “Uma hora de espera ou de sofrimento pode parecer uma eternidade, três dias de felicidade podem passar num piscar de olhos, e seis anos podem ficar reduzidos à lembrança de algumas breves cenas: o tempo com frequência perde a sua dimensão real e adquire outra, por força da nossa subjetividade” (pág. 59).

5. A caracterização de personagens − É preciso que o autor conheça seus personagens por completo, até mesmo, muito além do que conta sobre eles na história. “Deve conhecer sua biografia completa e todas as suas intimidades, inclusive aquelas de que os próprios personagens não têm consciência. Somente assim, conhecendo profundamente seus personagens é que conseguirá o autor fazer com que atuem com naturalidade e coerência” (pág.78).

Todos os temas tratados trazem como exemplos textos nos quais é possível fazer a relação entre o que é recomendado e o que se deve evitar em composições literárias de diferentes estilos.

Em uma época na qual a autopublicação tem se tornado cada vez mais acessível, investir em conhecimento e repertório se tornou um diferencial importante para quem tem o sonho de atuar profissionalmente no mundo da literatura. É triste quando pegamos um livro com uma ótima história (ou ao menos com potencial) e com o texto e a narrativa deficientes.

O livro aqui apresentado é apenas um entre incontáveis títulos sobre aperfeiçoamento da narrativa. Os aspirantes a escritores que possuem facilidade de aprendizado podem e devem se beneficiar dos materiais disponíveis nas livrarias e na própria internet. Afinal, como todos já ouvimos falar, a receita para o sucesso é 1% inspiração e 99% transpiração.